Sismo

Posted on 19. jan, 2010 by Fábio Bioca in Poesia


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O castelo de areia ruiu,
A criança corre nua sob suas lágrimas.
Suicidou-se a esperança que já era cruel.
A escuridão tomou conta do seu infinito,
E a imundície virou o cenário de um dia normal.
São moedas do seu dia-a-dia:
Medo, dor, solidão e agonia
Ainda chovem, encharcando a cabeça de quem quer o sol.
A miséria é geral e abundante.
Deve anão desejar ser gigante?
Não há morte pra quem está morto, mas há ressurreição.
A clareza dos tons anoitece,
A firmeza das mãos adormece.
Sobe um gosto de morte à saliva.
Vence o sono e convence, passivo,
Que o futuro haja sobrevivido.
Ouçam! Até me parece um gemido…
Quem sabe encontremos aqui!?

Faltarão centenas na aurora,
Mas em nós remanesce o Haiti.
Quem em nós remanesça o Haiti.

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Todos conhecemos o Haiti, dentro de nós, em algum momento das nossas vidas. Naquela dor angustiante da perda de quem amamos, na sensível impotência diante da coação a que fomos submetidos pelas forças naturais (e outras não tão naturais assim). Todos sabemos o quanto é solitária a tarefa de vasculhar as ruínas do que sobrou da nossa vida, por mais cruel que fosse, mas que hoje já traz saudade, diante da triste atualidade.
Sem demagogia, lamento tanta tragédia sobre um povo tão explorado e machucado. Tenho chorado pelo Haiti. Principalmente porque o Haiti, cada vez mais é em qualquer lugar. Amanhã pode ser aqui. Como na canção do Gil, “o Haiti pode ser aqui, sim”.

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One Response to “Sismo”

  1. Jeanine

    21. jan, 2010

    Que as centenas ausentes na aurora, embora já não mais vistos, não sejam por nós esquecidos…. que a presente comoção não seja momentânea… que não tenhamos a dor do outro como correntio… que resgatemos, dentro de nós, o latente amor pela existência.

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