Neguinha

Posted on 02. nov, 2009 by Fábio Bioca in Crônica

Ôpa, lá vem a neguinha bem na hora!…
Me agacho atrás do muro divertindo-me ao vê-la brincar.
Hoje a atração é especial. Com uma mão na cintura, marcando os passos, ora pra frente, ora pra trás, rebola cantarolando em seu microfone imaginário servida por suas bailarinas backings formidáveis.
Tem todo o jeito de mulher essa menina. Como é linda! Como sonha…
Os longos braços da fantasia a envolvem de uma maneira muito particular. E ela segue encantando com seu show desinibido. Troca a mão do microfone, passa o dedos entre os duros cabelinhos armados e aponta para a sua platéia, sem desconfiar que faço parte dela.
De repente, numa sincronia invejável, todas dão a música por encerrada no mesmo compasso e agradecem os infindáveis aplausos.
Agora, ao silêncio da pausa, de algum radinho mono lá no fundo, surge um samba antigo de roda e o espetáculo reinicia com outro cenário, embalado pelo improviso da menor e mais graciosa  porta-bandeira de toda a São Gonçalo.
Dum, dum, ticum-dum… Dum, dum, ticum-dum…
…Os pézinhos áridos, arrastam a poeira com maestria até a exaustão quando finalmente deixam-se cair no chão seco, rindo e gargalhando à tôa.
Neste momento, quando o público se levanta para ir embora, inclusive eu, temendo ser descoberto, um ruído familiar interrompe a encenação e todas saem correndo em disparada para a rua, tão eufóricas que nem sequer me perbecebem em flagrante além do muro.
Quem poderia ser senão o mágico vendedor de roleta, aquela casquinha sem gosto definido que as crianças adoram. O homem de rosto sofrido, ilhado entre aquelas cabecinhas de cabelinhos cheios de pelinhos e bolinhas brancas pede calma e distribui a cada uma suas iguarias.
Sem se dar conta da minha suspeita presença, as meninas passam mais uma vez, com um brilho intenso nos olhos hipnotizados, seguindo para a escadinha da frente da casa e lá, sentadas, falam umas sobre as outras,  sorrindo e devorando as maravilhosas gostosuras sem gosto…
Começa a esfriar e o sol está prestes a se recolher de vez.
É melhor ir embora. As luzes dos postes já estão rosadas, querendo acordar e anunciar a noite.
Amanhã haverá outro show, com certeza. Talvez eu dê sorte como hoje e chegue bem no horário.
Quem sabe amanhã ela me veja em meio aos seus tietes e me puxe pela mão para cima do palco.
Puxa! Seria o dia mais feliz da minha vida…
Quem dera a gente crescesse e se encontrasse numa sexta-feira, e ela me olhasse com aquele olhar maroto… Eu juro que nunca mais largava essa neguinha! Arrastava ela para uma igrejinha e arrematava todos os seus espetáculos por toda a nossa vida.
Mas um dia eu cresço…

Ôpa, lá vem a neguinha bem na hora!…

Me agacho atrás do muro divertindo-me ao vê-la brincar.

Hoje a atração é especial. Com uma mão na cintura, marcando os passos, ora pra frente, ora pra trás, rebola cantarolando em seu microfone imaginário servida por suas bailarinas backings formidáveis.

Tem todo o jeito de mulher essa menina. Como é linda! Como sonha…

Os longos braços da fantasia a envolvem de uma maneira muito particular. E ela segue encantando com seu show desinibido. Troca a mão do microfone, passa os dedos entre os duros cabelinhos armados e aponta para a sua platéia, sem desconfiar que faço parte dela.

De repente, numa sincronia invejável, todas dão a música por encerrada no mesmo compasso e agradecem os infindáveis aplausos.

Agora, ao silêncio da pausa, de algum radinho mono lá no fundo, surge um samba antigo de roda e o espetáculo reinicia com outro cenário, embalado pelo improviso da menor e mais graciosa  porta-bandeira de toda a São Gonçalo.

Dum, dum, ticum-dum… Dum, dum, ticum-dum…

…Os pezinhos áridos, arrastam a poeira com maestria até a exaustão quando finalmente deixam-se cair no chão seco, rindo e gargalhando à tôa.

Neste momento, quando o público se levanta para ir embora, inclusive eu, temendo ser descoberto, um ruído familiar interrompe a encenação e todas saem correndo em disparada para a rua, tão eufóricas que nem sequer me perbecebem em flagrante, além do muro.

Quem poderia ser senão o mágico vendedor de roleta? –  aquela casquinha sem gosto definido que as crianças adoram. O homem de rosto sofrido, ilhado entre aquelas cabecinhas de cabelinhos cheios de pelinhos e bolinhas brancas pede calma e distribui a cada uma suas iguarias.

Sem se dar conta da minha suspeita presença, as meninas passam mais uma vez, com um brilho intenso nos olhos hipnotizados, seguindo para a escadinha da frente da casa e lá, sentadas, falam umas sobre as outras,  sorrindo e devorando as maravilhosas gostosuras sem gosto…

Começa a esfriar e o sol está prestes a se recolher de vez.

É melhor ir embora. As luzes dos postes já estão rosadas, querendo acordar e anunciar a noite.

Amanhã haverá outro show, com certeza. Talvez eu dê sorte como hoje e chegue bem no horário.

Quem sabe amanhã ela me veja em meio aos seus tietes e me puxe pela mão para cima do palco.

Puxa! Seria o dia mais feliz da minha vida…

Quem dera a gente crescesse e se encontrasse numa sexta-feira, e ela me olhasse com aquele olhar maroto… Eu juro que nunca mais largava essa neguinha! Arrastava ela para uma igrejinha e arrematava todos os seus espetáculos por toda a nossa vida.

Mas um dia eu cresço…

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8 Responses to “Neguinha”

  1. Eliézer

    03. nov, 2009

    Muito boa, muito boa. Conseguiu captar tanto a essência ao descrever o texto, que ao ler consigo sentir até o gosto da casquinha sem gosto e escutar o som mono do rádio!!!
    Esperamos outras!!!

    Parabéns!!!

  2. Cléber

    03. nov, 2009

    Formidável… Estou eu prestes a iniciar mais uma jornada de trabalho nessa turbulenta cidade q não para e nem eu posso também. E ao abrir meu e-mail me deparo com seu link… Não sou muito de ficar lendo assim nessa hora, mas como viemos de um feriado, vamos lá, e ainda mais sendo de você que conheço a anos, pensei “vale a pena”… e valeu…. muito bom mesmo… continue… não sei realmente onde você pode chegar, mas o mais importante é realmente saber viver, e você sabe. Parabéns meu amigo !

    “Quem espera que a vida
    Seja feita de ilusão
    Pode até ficar maluco
    Ou morrer na solidãoo
    É preciso ter cuidado
    Pra mais tarde não sofrer
    É preciso saber viver”

    abc

  3. Fabio Andretti

    03. nov, 2009

    Cara. Amei este texto. Principalmente esta frase: “Puxa! Seria o dia mais feliz da minha vida…”… Retratou de uma maneira a situação que eu consegui me transportar pra dentro da cena… Que Deus te abençoe e continue te inspirando. Abc

  4. Fábio Bioca

    04. nov, 2009

    Sr. Andretti.

    Obrigado, mano.

    Esta novelinha conta uma cena que montei , cá entre as orelhas, onde promovi um encontro inusitado: eu e a Déa na nossa infância.

    Tem uma coisa que gosto, quando escrevo.
    A qualquer momento que eu ler o que escrevi, se você me perguntar, posso descrever uma infinidade de detalhes que estão implícitos no texto ou não, como local, temperatura, cheiro, cor, luz, presença, som, texturas…

    Este texto me faz viajar muito porque eu realmente fiz uma pesquisa de meses e, antes de escrever, me transportei para lá.

    Fico extremamente feliz quando alguém lê e tem impressões como a que você descreveu.

    Mais uma vez, obrigado.

    Abraço.

  5. Fábio Bioca

    04. nov, 2009

    Seu Viana Nobre.
    Cara, muuuito obrigado. Você tem feito falta por aqui.
    Lembro bem que você foi uma referência para mim e alguns amigos na nossa adolescência (não faz tanto tempo assim, hehe).
    Grande abraço. Paz e ótima semana pra você.

  6. Fábio Bioca

    04. nov, 2009

    Meu mano, Eliézer. Sempre presente.
    Fico feliz que isso tenha feito você viajar um pouquinho também.
    Só por isso, já valeu muito a pena.
    Obrigado pelas palavras.
    Abraço e, como diria o velhinho daquela propaganda antiga: “Apareçam!…”

  7. Dolly

    19. nov, 2009

    Super post, Need to mark it on Digg
    Thanks
    Dolly

  8. Fábio Bioca

    19. nov, 2009

    Dolly, é você mesmo? Tão longe e tão perto? Obrigado.

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