Aevum

Posted on 20. ago, 2013 by Fábio Bioca in Poesia

Lembro-me bem das grades do portão que deixei aberto,
pois não quis olhar para o que decidi deixar.
Nem quis lembrar-me do rosto de quem ficava.
Assim, evanescente, simplesmente evadi, um meliante,
quebrando esquinas para esquecer, até aqui.
Quis voltar e finalmente olhei para trás, mas não a vi…
Minhas furtivas pegadas coreografaram nosso desencontro.

…Depois, retroagir, mas não lembrei do nosso trotoir.
Então, sorri, feliz, desmemoriado como um tolo.
Afinal, basta uma vez ter sofrido de desapegamento.
Aos poucos, borro minhas lágrimas com os retalhos
de um papel onde rabisquei uma música para ela.
Mas não deu tempo…

E o mais triste é que, quanto mais choro,
mais cedo morre a poesia, afogada na minha própria dor.
Perdê-la é um ciclo infindável em um belvedere de Escher,
porque a deixo todos os dias, ao sentir o frio de estar aqui,
sabendo que a ausência é a maior explosão do nosso amor
e nos empurra a cada anoitecer hespério, para mais longe,
em um cataclisma quase continental, para sempre.

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4 Responses to “Aevum”

  1. Thiago Faria

    21. ago, 2013

    Legal, Bioca!
    Parabéns!

  2. Maik

    21. ago, 2013

    Como sempre me sinto tocada por suas palavras, depois de uma noite intensa com o meu pequeno Lucas, onde dormir foi o que menos consegui fazer, sai da cama e fui tentar acordar com um copo de café ( que não deveria ter tomado) e um pouco de você… Meu querido amigo suas palavras me levam a um tempo tão bom de ser lembrado e me sinto como uma menina cheia de vontade de viver, tudo que precisava era deste movimento para começar meu dia, um super abraço com muita saudade. ADOREIIIIII

  3. rafael pinheiro

    21. ago, 2013

    Vc como sempre tem o dom de escrever. Muito bom!

  4. Paula

    21. ago, 2013

    Bioca,

    Sempre arrasando, hein!? ^^

    Confesso que a palavra “hespério” me era total desconhecida… Mas depois fez todo o sentido.

    Arrasou, neguinho. ;)

    Beijos.

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