Namoradeira

Posted on 10. out, 2015 by Fábio Bioca.

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janela

Pela janela,
Passa depressa
Gente que vai.
Verso que espera
A tarde amarela.
Poesia, anoiteça.

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Cinzar

Posted on 28. set, 2015 by Fábio Bioca.

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elninho

Assim, nublou o azul do meu mundinho:
quando, ao desertar meu abraço-ninho,
entardeceu sem graça, vazio, sem você,
no plúmbeo, na révoa dos passarinhos
de onde te quero tanto, sem poder querer…

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Breve

Posted on 25. set, 2015 by Fábio Bioca.

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breve_colibri

Das paisagens mais lindas que vira,
nada mais que as frescas pétalas
que roubaram seus olhos brilhantes,
pra não palpitar como antes
quem para e não desacelera.

Iridescente apaixonado, voa durante toda lua
para amanhecer com um beijo em sua rósea inspiração.
Perdeu o sentido da vida e sente a vida, somente,
quando da dorida nascente, alimenta sua paixão.

Faz da sua vida tão breve o amor eterno que espera
sem saber que morre cedo, em poucos dias, coitado…
Enquanto ela renasce à espera do beijo do seu amado
nas manhãs ensolaradas de todas as primaveras.

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Causa Mortis

Posted on 25. ago, 2015 by Fábio Bioca.

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raio-x

Tem saudade que interrompe,
como aroma de café que antecipa a alvorada.
Já tem outra saudade que sangra,
como uma lâmina que fere a pele e corta o fundo do peito.
Outra, ainda, que sufoca
em um mergulho submerso de quem não sabe nadar, ao perseguir o desejo.
Toda saudade, entretanto, é o prenúncio da sina e da definição.
Talvez bem por isso, matar a saudade seja nada mais que adiamento…
Reencontrar quem se quer, amar tanto em um só momento,
tornar possível o que não o é e descrer no espaço e no tempo.
É disto que surge a vida; dá-se à luz, felicidade,
apenas a quem padeceu de amor até, então, morrer de saudade.

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Triz

Posted on 13. jul, 2015 by Fábio Bioca.

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plant

Quase desfaleci, desta vez…
Vi todas as constelações aqui, sobre meu leito,
quando o ar veio sem fôlego suficiente para me prorrogar a vida.
Confesso não ter havido susto, apesar de parecer saltar de uma ponte.
Mas percebi a gravidade da gravidade repressora,
pois havia um buraco indigesto entre meu umbigo e o céu da boca,
muito maior que a minha aerolítica queda livre.

O que fazer do “quase”?
Quando, por pouco, não se toca a superfície.
Ou, por um segundo, o atraso patrocina o desencontro…
Como esse ar que não respirei, não voltará a mim uma segunda chance.
Feito o estampido do tiro que não se ouviu, mas que chegou ao peito, abrupto.
Como o suor alcalino evaporado, ou a penumbra imprecisa de um eclipse no firmamento brusco.

Qual a razão da pertinácia, se a ausência já apodrentou metástase no silêncio?
Se a fragrância doce já não mora mais nas minhas mãos
e aquela piada que manifestou sorriso imediato tão perfeito, agora só me verte lágrimas?
Noite após noite, sou impingido ao futuro, desditoso, furtado do adeus ao passado.
Onde contraí tal moléstia? Esta maldita saudade rancorosa…

Ainda assim, jamais me arrependi do atrevimento.
Nem de ter sonhado tão alto.
Ou das concessões e perdas.
Da pele arrancada e da arritmia de moribundo.
Do risco da interrupção e da ruína insolvente.

Porque fui aquilo que quis: inegável e absolutamente teu.
Desenfreadamente veemente ao me envenenar da tua boca
e tão imbecil felizardo que não pretendi voltar a me ser meu.

Quando me deixou, fiquei.
Como me deixou, estou.
Onde me deixou, estarei.
Como um acorde diminuto,
à eterna espera de você, meu fim.

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Néctar

Posted on 16. jun, 2015 by Fábio Bioca.

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nectar

A propósito, flutuo vento,
nu, disfarço, rajo o intento
a contornar teu frágil corpo,
cada pétala, pouco a pouco.

Por pouco não me ausenta a vida.
Perco a razão inteira, querida,
E com extinto ar rarefeito,
resta-me só o vazio do peito.

Tudo que sinto é dor.
Tudo que toco dói.
Célere beija-flor,
no beijo do flóreo amor,
flagrou-se tão desertor.
Seja pra onde for,
sumiu para onde foi.

Voou até desasar.
Depois, despencou do céu.
Pois quando beijou seu par,
Sentiu, ao imaginar
de um dia o amor faltar,
saudade tão singular…
No ato, de amor morreu.

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Surto

Posted on 23. abr, 2015 by Fábio Bioca.

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digo

Mais parecia um olhar comum.
Indo de costas, perfeitos: o vento e seu sorriso.
As folhas, suas mãos, francas demais no aceno.
Então, virei-me e, ensimesmado, não voltei a olhar.
Não voltei para sentir teus carinhos.
Nem voltei pela tua beleza
ou pelo que vivemos antes.
Simplesmente, vim até aqui… Longe demais para voltar.

Retrato de um desaparecido, já não sou mais eu.
Pelo menos, não mais quem acreditamos que fosse.
E, com a cândida amargura monástica macambúzia,
sinto ter deixado o único barco apartar-se à deriva
para naufragar todos aqueles sonhos de uma só vez,
voluntariamente, silencioso e só.
Até não sentir mais pena, nem rancor ou aferro.

E, assim, atendendo à minha vocação mais egoísta,
vivo bem. Vivo sem. Apenas vivo. Ou nem isso.
Quem me visse diria que enlouqueci.
Ninguém, porém, me reconheceria agora.
Nem mesmo eu, para desferir-me a recriminação.
Pois durmo com o lixo e acordo com a chuva.
Não corro. Não ligo. Não respondo, nem espero.
Sou um insulto concebido em carne e osso.
A verruga, a ferida, a estranha deformação.
Aquilo que não se quer nem contemplar, sequer.
Muito menos dar conversa, ouvir, saber, admitir.
Uma coisa que não existe. Assim fiz-me ao desistir.
Ou, desfiz-me nessa tal coisa imune ao existir.
Se não existo, não vivo, não morro, desisto.
Qualquer noite, durmo com o lixo e não acordo de dia.
A menos que um aceno, um sorriso ou um olhar
me faça pensar naquilo que poderia ter sido
se antes da minha demência de pensar em te deixar,
tivesse sido mais louco para não ter desistido.

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“Poizé…”

Posted on 27. fev, 2015 by Fábio Bioca.

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seoze

Aqui estou, só.
Nem por mim só, mas solitário.
Fechadura que não abre, nem fecha.
Uma janela atrás de um guarda-roupas.
Ontem foi tão diferente
com os ramos presos ao galho.
E agora, em um ato falho, simulo o abraço, incapaz.

Há parecença onde era só eu. Na voz, nas mãos, no andar.
Naquilo que acho ser bom. No jeito de pensar.
No tom da escuridão. No querer continuar.
Mas vejo entre mim e o futuro, um espaço a se acostumar.
Um enorme vazio abstruso,
menor que o sorriso mineiro
que copio por inteiro, mesmo sem precisar.

Seguiu caminho primeiro. Fez o que é natural.
Deixou-me filho, sem pai.
Hoje não tão lampeiro, em paz.
Deixou-me a saudade tenaz.
Deixou-me o caminho das pedras
pra não nos perdermos, jamais.
E digo, “meus filhos, meu neto…
A vida é assim que se faz.”

Em memória do “Seo Zé”, pai do meu irmão Joe Costa.

Fotografia: Ribeirão da Ilha – Florianópolis, SC. 2014.

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Inexorável

Posted on 15. jan, 2015 by Fábio Bioca.

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degelo

Pode mesmo, alguém quando deveras amou,
retomar o que se deu, beber o que evaporou?
Seria como voltar na própria trilha, peregrino,
e ao se entrar em casa, fingir ser um novo destino.
Na teoria desamar pode ser até possível.
Ainda assim, incompreensível e impraticável desamar.
Como um sacerdote que renega a fé, já velho
ou um recém-nascido que não queira respirar.
Aí, então, isso seria desalmar. É crime desamar.
Um atentado violento contra a própria alma.
Uma agressão a quem por si consentiu amar.
Se desamar é assim tão mortal, frio e covarde,
que extingue a esperança, sem vergonha ou pudor,
prefiro sorver febril e desarmado, ao padecer de amor.

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Exílio em Gondwana

Posted on 10. dez, 2014 by Fábio Bioca.

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Exílio em Gondwana

Contra tudo que se quis, avassala tectônica
a expulsão lenta, invisível. Definitivamente os repele.
Num padrão de sismos, multiplica sua frequência
enquanto sabotam o mundo. Colidem insanos. Desidia.
Vítimas da intensidade, contemplam-se embatidas, opostas.

Há certa beleza sarcástica nas cicatrizes que secam,
mas também dor pressentida no olhar aflito de ambos.
A maciez da seda e a fumaça desta paixão avessa,
agridem a pele e censuram o alento mais escasso, sempre.
De olhares sonâmbulos extraviados, preâmbulos do destino,
lentamente dão-se as costas, sem a ciência do quanto.
Até que quando intentam tocar-se as pontas dos dedos,
só encontram a brisa vazia do tal oceano inédito.

E aos poucos, o que era um abraço já é uma longa viagem,
e os beijos doces desidratam como saudade acerba.
Por fim, surge o medo. A ausência e a apatia.
Falam línguas diferentes, cursam outra geografia.
Mudar o mundo – o sonho, em busca daquela utopia –
dorme desmemoriado, para a cura das suas almas vazias.

E, em seus mundos distantes, um segue a vida, ignorante
de que nesta manhã que lá anoitece, tão longe, enfim desfalece
seu desertor ex-futuro, passado, amigo e amante.

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Difusão

Posted on 16. jul, 2014 by Fábio Bioca.

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Um suspiro apenas…
Basta para eu desenhar o que pensas,
sentir tua apreensão e espiar o teu olhar
entre um piscar mais longo e outro.

No calor do teu fôlego, percebo a paz que cochila em teu peito,
como o balançar suave da água na margem em sombra tropical.
Pela força do vento que sai da tua boca, sou capaz de medir a aspiração
e, quase vapores, rarefeitas, despretenciosas intenções pairam, bem devagar.

Assim, sem qualquer fonema, com o sol atrás dos teus cabelos,
me dizes tanto sobre tudo, que sinto dor, espavorido,
como se a vida toda coubesse em uma singular paixão
e a minha existência durasse o esvaziar dos teus doces pulmões.

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Solaz

Posted on 10. abr, 2014 by Fábio Bioca.

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Voei de longe até me exaurir,
só pensando que uma improvável corrente
me traria flutuando até pousar em tua boca,
como se deitasse em meu próprio ninho.
E, então, sob uma chuva de tambores,
pulsando, confusamente esbaforido,
daria meu terminal último suspiro
a cada tentativa de recobrar meus sentidos.
Mas, antes, envolto, no aconchego das tuas mãos aveludadas,
esboçaria um mal-súbito para ser amparado pelo teu colo
e, enfim, beberia da tua respiração profunda
por um bom tempo, ao cair da tarde rosa
e ao chegar da turmalina noite.
E no breu, nada haveria. Nada.
Nem mesmo eu ou qualquer coisa consciente.
Somente a tua seiva e teu calor,
a me refazer as asas para o longo voo
pelos outros mares tão distantes, sem você.
Mas isso, só na alvorada,
já que por hora, a lua minguante, em colusão,
quis nos camuflar entre nuvens e serena escuridão efêmera.
Quase perene, de tão agora.

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Amor é fungo

Posted on 04. dez, 2013 by Fábio Bioca.

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Nasce incurável por vontade própria, veneno.
Restinge-se apenas inerte, craca, até que uma lágrima o umedeça e o calor o desperte cólera.

Somos apenas substrato para que nos infeste e se enraíze, cirroso, interno às nossas cascas.

Por isso que, do dia para a noite, caímos, de olhos esbugalhados, e deliramos febris até a libertação do sono profundo que nos priva de vivermos palpitando, ofegantes e como se estivéssemos morrendo a todo instante, como agora.

Depois, este mesmo fungo nos devorará até a desmaterialização no pó, que desaparecerá como perfume no primeiro vento da tarde para contaminar o mundo e tudo que for passível de amor.

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Aspas 4

Posted on 30. out, 2013 by Fábio Bioca.

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A felicidade é tão colorida e vulnerável quanto a gema de um ovo. Dura mais ser for menos exposta.
E se, no quebrar da casca, o trauma não for tão grave, com um pouco de fé e “sorte”, é possível preservá-la intacta.

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Aspas 3

Posted on 20. out, 2013 by Fábio Bioca.

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“Quando descobrimos que o que nos faz parecidos são as deformidades, nos apressamos em disfarçadamente enaltecê-las com o que chamamos de arte, na tentativa de redimir a nossa bizarra humanidade desumana.”

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Aspas 2

Posted on 26. ago, 2013 by Fábio Bioca.

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“Ter amigos é melhor do que ter razão.”

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Aspas 1

Posted on 26. ago, 2013 by Fábio Bioca.

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Errar é puro desperdício.
Principalmente quando acertar exigiria o mesmo esforço.”

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Aevum

Posted on 20. ago, 2013 by Fábio Bioca.

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Lembro-me bem das grades do portão que deixei aberto,
pois não quis olhar para o que decidi deixar.
Nem quis lembrar-me do rosto de quem ficava.
Assim, evanescente, simplesmente evadi, um meliante,
quebrando esquinas para esquecer, até aqui.
Quis voltar e finalmente olhei para trás, mas não a vi…
Minhas furtivas pegadas coreografaram nosso desencontro.

…Depois, retroagir, mas não lembrei do nosso trotoir.
Então, sorri, feliz, desmemoriado como um tolo.
Afinal, basta uma vez ter sofrido de desapegamento.
Aos poucos, borro minhas lágrimas com os retalhos
de um papel onde rabisquei uma música para ela.
Mas não deu tempo…

E o mais triste é que, quanto mais choro,
mais cedo morre a poesia, afogada na minha própria dor.
Perdê-la é um ciclo infindável em um belvedere de Escher,
porque a deixo todos os dias, ao sentir o frio de estar aqui,
sabendo que a ausência é a maior explosão do nosso amor
e nos empurra a cada anoitecer hespério, para mais longe,
em um cataclisma quase continental, para sempre.

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Sublimação

Posted on 09. jun, 2013 by Fábio Bioca.

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Era apenas mais uma madrugada enluarada.
Mas uma nuvem, de repente, me pareceu familiar.
Tinha uma forma de amor. Nem tentei desenhá-la. Seria mesmo impossível.
Flutuava em milhares de generosos sorrisos.
Seus cabelos esvoaçavam com a brisa quente.
Quando percebi, fazia horas que a olhava.
Senti uma mistura de dor, alegria e o impulso insano de abraçá-la.
Ela era do tamanho do meu abraço, mas parecia estar tão longe…
Foi quando meus olhos pesaram e adormeci profundamente.
Então, sonhando, puxei um pedaço de guardanapo e minha caneta preta.
Desenhei uma torre até a lua com cada saudade que sentia e comecei a empilhá-las.
Quando cheguei lá, me equilibrei bem na pontinha da última cratera. Fechei os olhos.
Em um fabuloso salto ornamental, mergulhei para o abraço.
E foi tão forte, que viramos uma garoa fina e transparente.
Agora já nem sei mais por onde ando.
Se no orvalho da ponta de uma folha ou na corredeira de um rio.
Tudo que sei é que daqui a pouco virá o sol pra me condensar até eu estar de volta na minha nuvem.
E seremos tão densos que à noite encobriremos a lua, para que ela seja só nossa.
Pelo menos até acordar, com o amanhecer.

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Orbital

Posted on 11. abr, 2013 by Fábio Bioca.

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Inunda a bruma por entre a purpúrea moldura.
Do vésper, clarescurece o tenebroso fim, pontualmente.
Rosicler, tremeluz entre faróis no asfalto febril.
Dilato as pupilas para fracionar tua camuflada silhueta.
Dá-se à luz o pretensioso gênese, assombrosamente.
Como um marcador de páginas, salta da escuridão da fé, tua aquarela.
Em um festival de cores de papoias, deportada da saudade e repatriada no abraço,
tua cintura magnetiza todos os satélites da minha mente noturnal.
De pés e mãos dormentes, recuo meio passo apenas,
para que caiba uma brisa quente entre o meu rosto e o teu.
Nasce um sorriso, quase como cãibra, involuntário.
Crescem os olhos antes de cegá-los as pálpebras,
até o impacto suave dos nossos lábios, tão quentes,
feito pirógrafos, que desenham-nos um no outro a própria alma.

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